Juventude, Favela e Educação Ambiental: O protagonismo periférico frente ao racismo ambiental

Por Ademir Cansian - mercadólogo e especialista em gestão de cidades e planejamento urbano

5/19/2026

O debate contemporâneo sobre a crise climática e a transição ecológica costuma ser conduzido por discursos globais e soluções de mercado que, muitas vezes, parecem distantes da realidade vivida nas periferias do Sul Global. No contexto das favelas brasileiras, a questão ambiental não se limita apenas à preservação da natureza, mas se manifesta diariamente na luta pela sobrevivência, pelo acesso à moradia digna, ao saneamento básico e às condições mínimas de vida. É justamente nesse cenário que emerge o conceito de racismo ambiental, entendido como a distribuição desigual dos impactos ambientais sobre populações negras, periféricas e socialmente vulnerabilizadas.

Diante dessa realidade, torna-se urgente romper com a visão limitada da educação ambiental tradicional, frequentemente reduzida a campanhas de reciclagem e mudanças individuais de comportamento. Pensar a educação ambiental nas periferias exige compreender que os problemas ecológicos estão diretamente ligados às desigualdades sociais, urbanas e raciais historicamente construídas.

Nesse sentido, o diálogo entre a Educação Ambiental Crítica, inspirada em Paulo Freire, e a geografia crítica de Milton Santos oferece importantes caminhos para compreender como a juventude periférica ressignifica as pautas ecológicas a partir de suas próprias vivências territoriais. Mais do que receptores passivos de informações, os jovens das favelas emergem como sujeitos políticos capazes de construir novas formas de pensar a justiça ambiental e social.

Paulo Freire criticava aquilo que chamou de “educação bancária”, modelo pedagógico em que o educador apenas deposita conteúdos no educando, ignorando sua realidade concreta. Quando aplicada ao debate ambiental, essa lógica acaba responsabilizando o indivíduo por problemas que são, na verdade, consequência da ausência histórica do Estado e das desigualdades estruturais. A ideia de que basta separar o lixo ou consumir de forma consciente não responde às contradições vividas em territórios onde faltam serviços básicos essenciais.

Milton Santos contribui para essa reflexão ao definir a favela como “território usado”, ou seja, um espaço construído pelas práticas cotidianas, pela cultura, pelo trabalho e pelas estratégias de sobrevivência de quem o habita. A periferia não é apenas um local marcado pela escassez, mas um território vivo, dinâmico e constantemente reinventado por seus moradores.

Essa precariedade estrutural fica evidente quando analisamos os dados sobre saneamento básico no Brasil. O Novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020) estabeleceu como meta a universalização de 90% da coleta e tratamento de esgoto até 2033. Entretanto, os dados do Censo Demográfico do IBGE revelam que cerca de 30% dos domicílios brasileiros ainda não possuem acesso adequado ao esgotamento sanitário. As desigualdades regionais também são profundas: enquanto o Sudeste se aproxima da universalização, a região Norte registra apenas 32,7% de conexões à rede geral de escoamento.

Esses números revelam a contradição presente em discursos ambientalistas centrados exclusivamente na responsabilidade individual. Afinal, como exigir práticas sustentáveis de populações cujo território ainda nega direitos básicos, como o acesso ao saneamento? Nesse contexto, a Educação Ambiental Crítica assume um papel emancipador, buscando não apenas ensinar comportamentos ecológicos, mas também estimular a consciência política e a compreensão das estruturas que produzem a desigualdade socioambiental.

Essa leitura crítica da realidade ganha ainda mais força quando observamos o racismo ambiental nas favelas brasileiras. Enchentes, deslizamentos, ausência de áreas verdes, poluição e vulnerabilidade climática atingem de forma desproporcional as populações negras e periféricas. Não se trata de uma fatalidade geográfica, mas de um processo histórico de segregação racial e negligência estatal na formulação de políticas públicas.

A crise habitacional brasileira reforça esse cenário. Segundo dados da Fundação João Pinheiro, o déficit habitacional no país alcança 5,97 milhões de moradias, representando cerca de 7,6% do total de habitações brasileiras. O principal fator responsável por esse déficit é o ônus excessivo com aluguel urbano, que corresponde a 61,3% do problema. Isso significa que milhões de famílias de baixa renda comprometem mais de 30% de seus rendimentos apenas para manter um teto.

O racismo ambiental se consolida justamente na intersecção entre desigualdade racial, precariedade habitacional e ausência de infraestrutura urbana. Historicamente, a população preta e parda foi empurrada para áreas mais vulneráveis a desastres ambientais e menos atendidas por investimentos públicos.

Milton Santos afirmava que os “pobres na cidade” desenvolvem uma percepção aguçada do território, pois a escassez material os obriga a compreender profundamente cada dinâmica do espaço urbano para garantir sua sobrevivência. O jovem da favela realiza, assim, uma leitura crítica do mundo pautada pela experiência cotidiana, entendendo que a degradação ambiental ao seu redor não é um acidente natural, mas uma violência estrutural e política.

É nesse contexto que a juventude periférica deixa de ocupar um papel passivo e emerge como protagonista da transformação territorial e ecológica. Esses jovens materializam aquilo que Paulo Freire compreendia como práxis: a união entre reflexão e ação para transformar a realidade.

Por meio da arte, da cultura, do audiovisual, dos coletivos comunitários e da agroecologia urbana, a juventude periférica constrói novas narrativas de resistência e pertencimento. Ao criarem hortas comunitárias, mutirões de reflorestamento, projetos culturais e redes de solidariedade, os jovens transformam espaços historicamente marcados pela carência em territórios de criatividade, potência e produção de novas ecologias populares.

Nesse movimento, eles realizam aquilo que Freire chamava de “denúncia e anúncio”: denunciam o racismo ambiental, a ausência de saneamento e a exclusão social, ao mesmo tempo em que anunciam novas possibilidades de futuro por meio de práticas sustentáveis e coletivas.

Essa atuação ganha ainda mais relevância diante da intensificação da crise climática global. Dados do monitoramento oficial do INPE (Prodes/Deter) apontam que o combate à criminalidade ambiental resultou em uma redução de 35% nos alertas de desmatamento na Amazônia e de 6% no Cerrado. Em contrapartida, o Pantanal registrou aumento de até 45,5% na degradação ambiental causada por queimadas e estiagens extremas.

Ao promoverem soluções locais, como agricultura urbana, recuperação de encostas e criação de microclimas comunitários, os jovens das periferias conectam as urgências das franjas urbanas à agenda ecológica global. Dessa forma, demonstram que o enfrentamento da crise climática também passa pela proteção dos territórios historicamente vulnerabilizados.

A articulação entre Paulo Freire e Milton Santos permite compreender que não existe transição ecológica verdadeiramente justa sem justiça social e territorial. A educação ambiental tradicional, centrada apenas no consumo verde e em mudanças individuais, mostra-se insuficiente diante da realidade das favelas brasileiras, onde os impactos ambientais possuem cor, classe social e endereço definidos.

Por meio da organização coletiva, da cultura e da ação política, a juventude periférica demonstra que a favela não deve ser enxergada apenas pela ótica da carência, mas também como espaço de potência, criatividade e construção de soluções sustentáveis. Mais do que representar o futuro do debate ambiental, os jovens das periferias já ocupam, no presente, um papel central na construção de uma agenda climática democrática, popular e socialmente justa.